Delírio
Se sou seco,
é porque não me regaram.
Hei de rogar à Mãe-do-Mato:
Dá-me um pouco de lágrimas
misturado no teu orvalho.
Uma água fina,
sem pompa de tempestade,
sem enchente nem gritaria,
que embarace os cabelos da Iara
e apague o rastro do Curupira.
Tira-me as ervas,
que exaurem meu caule já ermo.
Chama doutor, Ubanda e Pajé.
Santas heras parasitas
no meu corpo de Igarapé.
sábado, 16 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Versos com Desamor
Hoje o Leianoverso não trás nenhum poema meu. Nesta postagem venho fazer uma análise sobre o fenômeno mais "estudado" nos textos em verso: o Desamor. Desde o trovadorismo que ele vem sendo assíduo na nossa Literatura, e não é pra menos: o desatino de uma paixão faz o poeta/compositor perder o sono e buscar consolo no papel.
Na Música Brasileira é uma figurinha carimbada. Está presente em todos os ritmos. No forró o homem abandonado tenta demonstrar que está curtindo a vida; no sertanejo ele se entrega e mostra o âmago do seu sofrimento; na MPB e Rock mostra o homem "zuado", que parece ter escrevido bêbado tudo aquilo, não como uma música, mas como um desabafo.
Algumas mulheres ficaram famosas na nossa música. Uma fama ruim: foram conhecidas por terem abandonado seus companheiros e causado tamanha tristeza a ponto de gerar uma música dessas. Extistem várias: a Rita do Chico Buarque, a Marina do Dorival Caimmy, a Ana Júlia do Los Hermanos, Doralinda do Cazuza e etc. E até na música internacional, como Angie dos Rolling Stones e Layla de Eric Clapton (essa que deu briga com o Beatle George Harrison).
Enfim, selecionei as - na minha opnião - as duas principais vilãs da nossa música. De origens distintas, a goiana "Mariane" do Bruno e do Marrone e a "Inês" do paulista Adoniram Barbosa. A primeira da primeira década deste século e a outra de 1956. Ainda está pra nascer um veneno maior que o dessas duas víboras!
E pra você, quem é a grande vadia-vagabunda-rameira-rapariga da nossa música???
Bruno
e Marrone
Marianne
No
dia do aniversário do nosso namoro
Acordei até mais cedo
Doidinho pra te ver
Acordei até mais cedo
Doidinho pra te ver
E de repente ouvi a campainha
E que surpresa
Quando eu abri a porta
Flores mandadas por você
E que surpresa
Quando eu abri a porta
Flores mandadas por você
Quase não acreditei
Que elas eram pra mim
Mas quando li o bilhete que dizia assim:
"Nosso amor foi bom enquanto durou."
Que elas eram pra mim
Mas quando li o bilhete que dizia assim:
"Nosso amor foi bom enquanto durou."
E eu chorando, segurando o maldito buquê
Perdido ainda tentando entender por quê
Nesse desespero comecei a te chamar:
Perdido ainda tentando entender por quê
Nesse desespero comecei a te chamar:
Marianne,
você me prendeu.
Depois diz que não me quer.
Choro e grito por seu nome:
Marianne
você me prendeu.
Depois diz que não me quer.
Choro e grito por seu nome:
Marianne
Com você meu mundo é mais feliz.
Bate forte o coração.
Volta e vem amor, me ame,
Marianne.
Bate forte o coração.
Volta e vem amor, me ame,
Marianne.
Adoniran Barbosa
Apaga o fogo, Mané
Inês saiu
dizendo que ia
Comprá um
pavio pro lampião
Pode me esperar, Mané
Eu já volto já.
Acendi o fogão
Botei água pra esquentá
E sai no portão
Só pra ver a Inês chegar
Anoiteceu e ela não voltou
Fui pra a rua feito um louco
pra saber o que aconteceu
Procurei na Central
Procurei no Hospital
E no xadrez
Andei a cidade inteira
Mas não encontrei Inês
Voltei pra casa
Triste demais
O que a Inês fez
Não se faz
E no chão bem perto do fogão
Encontrei um papel escrito assim
Pode apagar o fogo, Mané,
Eu não volto mais.
Pode apagar o fogo, Mané,
Eu não volto mais.
Pode me esperar, Mané
Eu já volto já.
Acendi o fogão
Botei água pra esquentá
E sai no portão
Só pra ver a Inês chegar
Anoiteceu e ela não voltou
Fui pra a rua feito um louco
pra saber o que aconteceu
Procurei na Central
Procurei no Hospital
E no xadrez
Andei a cidade inteira
Mas não encontrei Inês
Voltei pra casa
Triste demais
O que a Inês fez
Não se faz
E no chão bem perto do fogão
Encontrei um papel escrito assim
Pode apagar o fogo, Mané,
Eu não volto mais.
Pode apagar o fogo, Mané,
Eu não volto mais.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Feliz ano novo!
Eu poderia fazer o último post do ano com a poesia do Drummond que está na (ótima) propaganda do Bradesco. "Receita de Ano Novo" cabe em qualquer fim de ano possível. Pois é "dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre".
Festas à parte, trago um poema reflexivo. A poesia em si é um grande instrumento de reflexão e resolvi usá-lo nos seguintes versos.
Ilha
Sou uma ilha.
Ser um pedaço de terra envolto de água
não me incomoda.
Não me convém ser um continente.
A vastidão e a grandeza não me pertencem,
e a uniformidade me perturba.
Aliás, a Pangéia era nada mais
que uma ilha de ego inflado.
Sou ilha, não importa qual.
Se Florianópolis, Marajó ou Galápago,
sou um só, sem igual,
mesmo sendo de um arquipélago.
Ilha
Sou uma ilha.
Ser um pedaço de terra envolto de água
não me incomoda.
Não me convém ser um continente.
A vastidão e a grandeza não me pertencem,
e a uniformidade me perturba.
Aliás, a Pangéia era nada mais
que uma ilha de ego inflado.
Sou ilha, não importa qual.
Se Florianópolis, Marajó ou Galápago,
sou um só, sem igual,
mesmo sendo de um arquipélago.
sábado, 22 de dezembro de 2012
A tecnologia e a poesia
É inegável como a tecnologia tem evoluído nas últimas décadas. Com o advento da internet e com a evolução dos meios de comunicação, o consumidor teve mais acesso ainda a essa tecnologia. (Praticamente) todos hoje tem um notebook, um tablet ou um smartphone (ou os três!). Invariavalmente todos os setores da economia e da vida - dos operadores das bolsas de valores à religião - precisaram se ajustar e incorporar a si a revolução tecnocientífica.
Com a literatura não é diferente. Praticamente todos os escritores hoje usam tablets ou computadores para trabalhar, ao passo que muitos leitores abandonaram o papel e leem em suas telas. Mas e a poesia?
Posso dizer que a poesia ainda não está incorporada ao processo.
A composição do poema é diferenciada. No papel as idéias fluem mais facilmente. Agem como uma psicografia. Na digitação, não. É como se uma tese, um trabalho, estivesse sendo redigido. "Não existe mais poesia, e sim artes poéticas" - com diria Manuel Bandeira - se todos os poetas resolvessem aposentar a celulose.
A poesia do meu tempo
Há quem escreva poemas agora
em computadores e em telas de retina.
Nada contra. Nada principalmente a favor.
Os aplicativos exigem a perfeição e a forma.
O papel, apenas a licença poética.
Licença consentida.
O papel pede a caneta ou o lápis,
ou a pena, para o nostálgico.
A máquina te impõe pontuação e acentuação.
O papel te oferece a imperfeição.
Imaginem que chata a manchete:
"Encontrado backup de Camões".
Mas sempre é fantástico
o rascunho do letrista não sei onde achado.
Mofado, sujo e amarelado.
É comparar o gol de canela com o de bicicleta,
a comida da avó com a de conserva,
Garota de Ipanema num riff de guitarra,
com o dedilhado do Poetinha.
Assim também as poesias de pixels e de celulose:
são a mesma coisa;
a coisa é que não é a mesma.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
A arte hoje: somos vítimas ou culpados?
Estou há muito tempo sem escrever. Decidi voltar à atividade hoje. É um pouco sobre a nossa carência cultural. É mais fácil um artista rimar o nome de um carro e usar os clichês amor-dor, paixão-coração e etc. que realmente procurar inserir algum conteúdo no seu trabalho. O quadro se estende para a literatura. Os títulos em destaque apelam para sexy simbols (ora com gravata prateada, ora como ser hematófago) para atrais, em geral, leitoras carentes. Aposto que grande fatia comprou Crepúsculo por causa do ator, mas duvido que compraram "Iracema" pela beleza da protagonista ou "O Guarani" pelos músculos de Peri.
Isso não é exclusividade tupiniquim. Os artistas que nos empurram goela abaixo vindo do "estrangeiro" preferem fazer clipes sensuais, letras apelativas e pronto. Não critico o público, pois se grandes artistas voltassem a ser prioridade para as gravadoras, editoras e para a mídia como um todo, o panorama estaria diferente.
Prisma
A poesia é o inverso de um prisma.
Junta as sete cores e forma uma luz.
Indissociável.
Se a luz se refrata em sete tons,
há sete sentidos. Sete sensações.
Se um verso é esquartejado em palavras,
não há nada a mais que caracteres enfileirados e vazios.
Apenas o reverso: as letras se juntam para fazer a razão.
Na aquarela, o azul até rima com o anil
e o laranja com o vermelho e o amarelo.
Mas pobre do verso que se contenta
em não ter razão para ter paralelo.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Poema médico mais uma vez...
Anatomia de um poema
Posição anatômica: olhar no horizonte.
Então vou dissecando o poema.
Conto as sílabas poéticas como quem conta vértebras,
processos espinhosos - como sabe ferir um espinho rimado! -
e processos trans-versos.
Na Neuro começa o problema.
Há versos que me neuram, me marcam
e, nos feixes do sistema límbico,
o poema vai se enrolando de libido.
Envolvente como a mielina em seu tecido.
Vou examinando cada órgão
e dividindo em estrofes e estratos.
às vezes enxergo até uma imagem esquisita:
aqui ou ali um parasita.
Terminando o estudo. Está pronto:
Tudo anotado. Logo será publicado.
O corpo incidido e o poema estão abertos.
Hora de dar os pontos...
Posição anatômica: olhar no horizonte.
Então vou dissecando o poema.
Conto as sílabas poéticas como quem conta vértebras,
processos espinhosos - como sabe ferir um espinho rimado! -
e processos trans-versos.
Na Neuro começa o problema.
Há versos que me neuram, me marcam
e, nos feixes do sistema límbico,
o poema vai se enrolando de libido.
Envolvente como a mielina em seu tecido.
Vou examinando cada órgão
e dividindo em estrofes e estratos.
às vezes enxergo até uma imagem esquisita:
aqui ou ali um parasita.
Terminando o estudo. Está pronto:
Tudo anotado. Logo será publicado.
O corpo incidido e o poema estão abertos.
Hora de dar os pontos...
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Amor divino e Paixão humana
O futebol mexe com os brios de pelo menos 80% da população mundial. É um sentimento incontrolável e inexplicável. Nem sempre é sinônimo de patriotismo, pois para a esmagadora maioria, o seu clube é mais importante que a seleção do seu país, e estou inserido na estatística. Nenhuma forma de amor é tão voraz, insaciável e explosiva nesse mundo terreno que aquela que um torcedor carrega no peito.
É divina, pois sabe perdoar e não guarda mágoa. Seu time pode ter perdido, sido humilhado e você pode até ir dormir de cabeça quente (ou não conseguir dormir) e dizer “eu nunca mais quero saber de futebol!”. Porém, no dia seguinte já acorda fazendo contas para a tabela de classificação. É, meu caro, você já perdoou. Não há como guardar rancor de algo tão nobre que nos alegra e nos desespera no mesmo minuto. É amor divino pois não há preconceito nem ciúme. Afinal, se você torce por um time, você não se importa que outras pessoas também torçam. Não é como uma mulher, que você odiaria que outra pessoa a amasse. Quem frequenta estádio sabe: na hora do gol, todo mundo é irmão. Já abracei tanta gente fedorenta que na hora parecia abraçar um anjo. Não tem divisão. Qualquer um pode amar seu time. O favelado, o miserável, a classe média e o milionário. É um amor bíblico que sabe esperar quarenta anos vagando pelo deserto em busca da terra prometida (ou um título), que é incondicional e milagroso. É um amor que leva do inferno ao céu e vice-versa.
E a fidelidade é crucial para a divindade do negócio. Conhece alguém que tenha trocado de time? Dificilmente. É um amor que você escolhe ao nascer. Na verdade, não se escolhe. É como se cada um fosse selecionado para perecer diante de um time sua vida toda. Claro, tem aqueles que trocam de time por causa de namorado, da sogra ou pelo dinheiro ou qualquer outra coisa. Francamente, quem trai um amor tão sincero desse não deve ter amor próprio, e um traidor assim não é perdoado. Um exemplo são os jogadores. O atleta troca seu time por um rival. Pode ser que seja um salário melhor ou coisa e tal e os sabichões intelectuais irão falar “ah, ele é um profissional”. Sim, ele é um profissional. Porém, você leva uma bandeira com o rosto do padeiro quando vai comprar pão? Os pacientes cantam em coro o nome da clínica e do médico enquanto sentam na sala de espera? Você compra uma camisa com o nome do seu advogado nas costas? Provavelmente não. Portanto, não é uma simples troca de uma empresa por outra, mas sim uma apunhalada no peito fiel de um torcedor apaixonado. E por ser um amor divino, pecados capitais não devem ser perdoados…
Todavia, por ser uma paixão, é propriedade humana, e aí que a coisa fica mais intrigante. O ser humano apaixonado é capaz de tudo, e nem sempre isso é um aspecto positivo. O apaixonado briga, sai no tapa, na faca, na bala, e isso é o que vem acontecendo nos estádios e arredores. Amantes organizados brigando para saber quem é o melhor, sendo que isso se resolve no campo, não fora dele. Não só a questão das brigas e da violência, mas o sofrimento aqui fala mais alto. Quando o time perde, o torcedor não quer almoçar, não quer sair, não quer atender o telefone. A derrota é a TPM masculina. É uma prova de sensibilidade de uma mulher não mexer com um macho derrotado, pois este sofre. É uma automutilação, pois mesmo com a certeza da derrota, não sai do estádio e nem da frente da TV, sofrendo a cada instante e depois dele. Sofre como quem dá-se ao carrasco. Uma dor lancinante, um remorso, uma angústia, um arrependimento (ainda que não foi você quem levou o frango ou perdeu o pênalti), o mais amargo e depressivo dos sentimentos. Não demora muito, semana que vem pode ser resolvido com um gol. E é assim que nos vingamos de todas as derrotas da vida: a cada gol do meu time eu me sinto um vencedor.
De tão humano, usou os defeitos para criar qualidades. A rivalidade – que mata e espanca – é a mesma que faz a brincadeira bem humorada, a gozação de toda segunda e quinta feira, as gracinhas nas redes sociais e etc. Quantas amizades não foram construídas graças à rivalidade? Alguns dos meus grandes amigos conquistei discutindo futebol e falando mal dos seus times, enquanto defendia o meu com unhas e dentes. É divertido, e mesmo que seu time seja superior ao do amigo, a discussão nunca tem um vencedor.
O grande mal da humanidade é a inveja. No caso da paixão futebolística não é diferente. Quem não tem um amor desses (ou torce pra Portuguesa, CSA, Tuna ou sei lá) fica falando mal de quem ama. Ora essa, onde já se viu criticar um homem por amar?! E não adianta falar “ele não gosta de futebol, ele é gay!”. Isso é mentira, pois conheço muitos torcedores do Grêmio, Fluminense e São Paulo e eles adoram futebol. É coisa de pseudo-intelectual. É como falar que não gosta de escola de samba ou da globo. Soa bonito para um ego inflado. Pensa que é um Aristóteles do século XXI. Talvez se deixassem o sentimento fluir logo perceberiam o carrossel que iria tornar suas vidas e assim deixando o nobre coração torcedor em paz. Quem ama aceita as consequências de sofrer e gosta disso.
Por base em todo esse longuíssimo e extenuante texto, trago minha tese: o futebol tem asas de anjo em carne humana. É uma força maior que nos guia, que nos faz comemorar efusivamente cada gol pró e cometer um autoexílio na solidão de cada gol sofrido. Se dizem que o melhor amigo do homem é o cachorro, a melhor amiga com certeza é a bola.
Assinar:
Postagens (Atom)
